A arte de mentir dizendo a verdade

O relatório produzido pela empresa gestora do SIRESP, disponível aqui, diz preto no branco que nenhuma das antenas ficou fora de serviço durante o incêndio. No entanto os jornais dizem que a rede falhou, aqui o DN, ali o Observador e acolá a RTP.  Os bombeiros assim dizem ao Público, confirmam ao Expresso e repetem na SIC. À primeira vista pode parecer que a SIRESP está a mentir, quando na verdade estão apenas a falar de coisas diferentes.

Primeiro vamos ao óbvio, parte dos dados no relatório estão cozinhados. São definidos três períodos de tempo com durações diferentes, o que dificulta a comparação, e o relatório tem o cuidado de usar sempre a média para medidas de performance.  A performance das antenas em modo local não é descrita em lado nenhum. Tal como em lado nenhum se define o que é uma falha, o que é conveniente para lançar a confusão.

A única medida de performance que se define é o número de busies, isto é, o número de vezes que um utilizador tenta comunicar e não consegue porque a rede está ocupada. Pondo no lixo as tabelas e os valores médios, que é onde eles merecem estar, concentremos o olhar nos gráficos que estão no relatório.

O que salta logo à vista é que quando uma antena passa a modo local, as vizinhas levam com um acréscimo de tráfico. Isto é perfeitamente normal que suceda e a não ser que a rede SIRESP esteja dotada de poderes mágicos, não vejo como poderia ser de outra forma.  É também evidente que apesar de em média, a rede ter tido um número de busies bastante baixo, algumas das antenas na zona exibiram rácios busies/chamadas entre 20% a mais de 100% (sim mais de 100%) durante algumas horas.

A conclusão que tiro do relatório é que a rede está francamente mal dimensionada para uma catástrofe das dimensões de Pedrógão Grande. A olhómetro, diria que cada antena permite um máximo de 500 (arriscaria até o número mágico de 512) chamadas/hora, ou seja cerca de 1000 (ou o número mágico 1024) utilizadores por hora. Para comparação, durante o pico do combate ás chamas estiveram no local 2000 homens.

Portanto, o SIRESP falhou ? Depende do que se entende por falhar. É verdade que a rede esteve sobrecarregada durante os incêndios, o que na prática se traduziu por muitos utilizadores não serem capaz de comunicar. Mas não consigo perceber como poderia ser diferente não existindo antenas redundantes (isto é antenas móveis e com capacidade de comunicar por satélite).  O ponto chave é que a gestão da rede está a ser mal feita e o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita. O que é pena porque, do ponto de vista técnico, o SIRESP parece ser do melhor que há.

 

 

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